Nesta nova edição, o Jornal Brazuk resolveu fazer uma homenagem ao ator “Arildo Figueiredo”, que há quase quatro anos nos deixou na saudade, e que no dia 5 deste mês, completaria os seus 47 anos de vida. Depois de rodar o Brasil participando como ator em produções de espetáculos, e de televisão, Arildo resolveu abrir novas fronteiras, e tentar a vida noutro país, vindo parar em Portugal, mais especificamente, em Lisboa, onde viveu e trabalhou por sete anos, fazendo de tudo um pouco. “Trabalhou principalmente no Bairro Alto, criando amigos, fazendo contatos na noite lisboeta, mas infelizmente, em Lisboa ele não conseguia viver financeiramente a partir da sua profissão e durante tempos trabalhou com muito gosto em bares e restaurantes”, é o que conta o seu amigo Pablo Fernandes, brasileiro, dono do Espaço Evoé, em Lisboa. “Conheci o Arildo assim que ele chegou aqui, alguém sabia do trabalho que eu estava a realizar e deu-lhe o meu contato, tivemos logo uma empatia grande. Sempre cheio de projetos e sonhos, mas com alguma dificuldade em organizá-los na prática. Um apaixonado pelo teatro e pela noite, o próprio Omar Khayam, poeta e filósofo persa que celebrava o prazer e a embriaguez da vida terrena e mundana, amante do vinho e das mulheres, personagem que ele representou a partir dos poemas deste, num monólogo com o mesmo nome. Também, já tinha ouvido falar muito bem sobre um espetáculo em que ele participou como actor, e que fora encenado pelo falecido Dácio Lima, que chamava-se "O Baile", e esteve em cartaz por muito tempo e percorrendo os principais festivais de teatro do Brasil, tendo alcançado o reconhecimento da classe artística brasileira”.
Foi através deste mesmo espetáculo “O Baile”, que o ator Thiago Justino conheceu o trabalho de Arildo Figueiredo. Thiago que também é brasileiro e já vive há anos em Portugal, contou ao Brazuk que ainda no Brasil, veio a conhecer o Arildo pessoalmente através de um amigo em comum, o Jorge Gonzaga, DJ das noites da Lapa, no Rio de Janeiro. “Arildo era um homem de teatro, em O Baile fazia o garçom, se não me engano. Nunca trabalhamos juntos, e quando ele veio para cá, não tivemos muito contato, só sei que andava apresentando espetáculos e dando aulas de teatro, e soube do seu falecimento um tempo depois”, conta Thiago Justino.Criado no Méier, bairro típico do Rio de Janeiro, Arildo Figueiredo, deu um salto para o mundo, mas ainda em seu país, alcançou bastante êxito através de suas atuações em espetáculos teatrais, e na televisão. Trabalhou com companhias, e diretores conhecidos, entre eles, Carlos Wilson, Eduardo Votzik, Marco Antonio Palmeira, Dácio Lima, Marcelo Saback, Ana Maria Nunes, etc. No entanto, foi em 1991, que Arildo ficou ainda mais conhecido, quando apareceu com seu personagem “Tucano”, ao lado da atriz Arlete Salles, nas cenas mais divertidas da novela da Rede Globo “Lua Cheia de Amor”, de Gilberto Braga, sob a direção de Roberto Thalma.
Arildo fez o seu primeiro curso de formação de ator, em 1986, no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, na Praça Onze, no centro do Rio de Janeiro, onde conheceu o ator Alexandre Pring, que hoje também vive em Lisboa. “Desde a primeira vez que vi o Arildo em cena, num simples exercício de curso, percebi que ele já tinha bastante qualidade como ator, e intimidade no assunto. O que eu não esperava é que fôssemos ter um laço tão forte de amizade como a que tivemos, e que ainda passaríamos por tantos exercícios de teatro, e de vida juntos. Ele abandonou o curso de formação porque já começou a trabalhar profissionalmente, mesmo assim ganhou o diploma”, comenta com risos, Alexandre Pring. “Apenas durante o período em que ele trabalhou na Globo, e depois foi morar em Salvador, na Bahia, é que perdemos contato, mas sempre nos encontrávamos pelos becos da Lapa, nas festas, e vi todos os seus espetáculos. Trabalhamos juntos apenas duas vezes, ele fez a administração de um dos meus espetáculos, e eu montei a trilha sonora para um espetáculo que ele dirigiu, “O Médico à Força”, de Molière, que estreiou no Teatro Municipal de Ouro Preto. Tínhamos um contato mais de amizade, do que profissional, mas o sonho de montarmos um trabalho juntos, uma comédia, é óbvio, ficou um pouco na saudade. Depois que ele veio viver em Portugal, mudava de telefone e endereço constantemente, e perdemos contato, pois eu ainda vivia no Brasil. Somente em 2004, consegui o seu endereço de e-mail, e aí sim, estabelecemos contato, nesta época me programei para vir a Portugal, combinando nosso reencontro em Lisboa, mas na semana seguinte soube do seu falecimento, este encontro ele ficou me devendo. Depois que cheguei em Lisboa, conheci alguns de seus novos amigos, e soube um pouco de sua trajetória por aqui, e também que havia mudado seu nome artístico de “Arildo Figueiredo” para “Arildo Agla”, que deu aulas de teatro e encenou seus espetáculos pela cidade. O Arildo fez e continua fazendo parte da minha história, nunca será esquecido, nem por mim, e nem por aqueles que o conheceram, seja na amizade ou através de seu trabalho. Saudades do amigo Arildo”.
A data exata, ninguém sabe dizer, mas conta Pablo Fernandes, que a causa foi uma crise aguda de asma, e que quem tratou de tudo foram os amigos mais próximos, Jorge Cruz, Eduardo Fão, Susana Cecílio, e o próprio Pablo, “o corpo foi cremado e a cinzas lançadas ao mar nas imediações da Praia do Guincho, creio que parte das cinzas ficou na costa portuguesa, e que a outra navegou até as praias do Rio de Janeiro, terra que ele amava como poucos”. Tempos antes, Arildo e Pablo trabalharam juntos no espetáculo “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, de Plínio Marcos, com os dois em cena, durante duas horas, sem sair do palco. “Tínhamos uma cumplicidade muito grande em cena, o Arildo era muito comunicativo e perspicaz, estávamos sempre a improvisar e a brincar em cena, sem que o público percebesse, haviam sempre pequenas mudanças que faziam com que o outro tivesse que estar sempre "esperto" como costumávamos dizer”, conta Pablo. Apesar das dificuldades que o Brazuk encontrou para colher informações para esta matéria, fica aqui registrada a nossa homenagem, e também o nosso muito obrigado a todos aqueles que concordaram em colaborar!